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domingo, 28 de fevereiro de 2021

O caso Phineas Gage (2) "Gage já não era Gage" ? - Algumas considerações sobre o livre arbítrio

Como vimos na publicação imediatamente anterior, Gage mudou completamente a sua personalidade após o acidente, de tal modo que os seus amigos dificilmente o reconheciam. Como diz Damásio, «observavam entristecidos que "Gage já não era Gage". Era agora um homem tão diferente que os patrões tiveram que o dispensar pouco tempo depois de ter regressado ao trabalho. (...). O problema não residia na falta de capacidade física ou competência mas no seu novo caráter". (Damásio, O Erro de Descartes, Lisboa, Europa-América, 1998, p. 28).

O estudo do caso de Phineas Gage faz com que Damásio levante questões fundamentais relativamente ao estatuto do ser humano.

«Poderá Gage ser descrito como estando dotado de livre-arbítrio? Teria sensibilidade relativamente ao que está certo e errado, ou era vítima do seu novo design cerebral, de forma que as suas decisões lhe eram impostas e por isso inevitáveis? Era responsável pelos seus atos? Se concluímos que não era, que nos pode isso dizer sobre o sentido de responsabilidade em termos gerais? Existem muitos Gages à nossa volta, indivíduos cuja desgraça social é perturbadoramente semelhante. Alguns têm lesões cerebrais em consequência de tumores cerebrais , de ferimentos na cabeça ou de outras doenças do foro neurológico. Outros, no entanto, não tiveram qualquer doença neurológica e comportam-se, ainda assim, como Gage por razões que têm a ver com os seus cérebros ou com a sociedade em que nasceram. Precisamos de compreender a natureza destes seres humanos cujas ações podem ser destrutivas tanto para si próprias como para os outros, caso pretendamos resolver humanamente os problemas que eles colocam. Nem o encarceramento nem a pena de morte - respostas que a sociedade atualmente oferece para esses indivíduos - contribuem para a nossa compreensão do problema ou para a sua resolução.»

Alguns filósofos sentem-se tentados a encontrar nas mais recentes descobertas das neurociências um forte argumento para a teoria determinista, considerando-a a melhor resposta para o problema do livre arbítrio. No entanto, o facto de sabermos o "como" acontecem certos fenómenos não nos permite responder ao "porquê". Quer dizer, o facto de, em todos os processos mentais, dos mais simples aos mais complexos, estarem envolvidos redes neurais e alterações bioquímicas não autoriza a considerar estes fenómenos como causa de estados mentais. A complexidade das interações que se estabelecem e a multiplicidade de variáveis envolvidas dificulta qualquer resposta simplista. Se é verdade que não é possível considerar um mundo mental separado de um corpo físico devemos precaver-nos para a tendência em passar daí para a redução do mental ao físico, permanecendo no  mesmo dualismo que rejeitámos.

Como considera Damásio «a dependência da razão superior relativamente ao cérebro de nível inferior não a transforma em razão inferior. O facto de agir de acordo com um dado princípio ético requerer a participação de circuitos modestos no cerne do cérebro não empobrece esse princípio ético. O edifício da ética não desaba, a moralidade não está ameaçada e, num indivíduo normal, a vontade continua a ser vontade.» (Ibidem, p.15)


Capa da edição da Europa-América, 1ª edição em português de 1995
(a obra foi publicada pela primeira vez em 1994, em língua inglesa)


segunda-feira, 1 de julho de 2019

O problema filosófico do livre arbítrio - a teoria do Determinismo Moderado


retirado de http://seo007.info/Scientific-Replication-Clipart-86a3f0/


O aluno Pedro M., do 10º ano, turma A, escreveu este texto no qual se posiciona relativamente ao problema filosófico do livre-arbítrio. Foi um texto escrito em contexto de sala de aula, sem recurso a materiais de consulta. 

«No que toca ao problema do lívre-arbítrio, defendo o determinismo moderado, que, como teoria compatibilista, defende que o determinismo e o lívre-arbítrio são conceitos que podem coexistir na mesma realidade. É possível, por isso, afirmar que tudo tem uma causa mas esse facto não implica a inexistência de liberdade nas ações humanas.
O determinista moderado afirma que tudo está sujeito ao determinismo, ou seja, tudo tem uma causa. Mas a liberdade existe pois esta não reside no facto de as nossas ações se realizarem na ausência de causa, mas na ausência de compulsão externa ou interna.
Esta teoria surge porque quando olhamos para as teorias incompatibilistas e as analisamos ficamos num beco sem saída. Temos de rejeitar o determinismo radical pois nega a responsabilidade moral mas temos de negar o libertismo pois, se ele for real, não teríamos justificação para considerar as pessoas moralmente responsáveis pelas suas ações (já que se as pessoas são livres na ausência de causa estas não podem dizer o motivo porque fizeram uma ação - já que não existe).
Sendo tudo determinado no Universo (incluindo os nossos desejos, crenças, valores e personalidade) como podemos ser nós criaturas livres? A resposta reside no conceito de liberdade que estes teóricos defendem (já referido), sendo que estes afirmam que a nossa ação pode ser livre mesmo determinada, mas isto só acontece se esta estiver de acordo com a nossa personalidade.
Mas esta teoria não é irrefutável. E um dos principais problemas desta teoria é que "o critério de liberdade precisa de ser aprimorado" e que estando de acordo com tantos argumentos do determinismo radical (incluindo o da inevitabilidade - o que aconteceu teve de acontecer e não poderia ter acontecido de outro modo) como é que o ser humano pode ter livre-arbítrio?
Na minha opinião, a pergunta que devemos de fazer não é "Somos livres?" mas antes "Quão condicionada se encontra a nossa ação?" e que a própria definição de liberdade faz com que uma teoria possa ser mais ou menos fiável.»

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Fernando Belo

imagem retirada de https://www.publico.pt/2018/12/03/culturaipsilon/noticia/morreu-fernando-belo-1853295


Fernando Belo, filósofo português, foi professor no Curso de Filosofia da Faculdade de Letras  da Universidade de Lisboa (1975-2003). O seu pensamento situa-se sob a influência da fenomenologia de Husserl, da filosofia de Heidegger e do estruturalismo francês. A sua área  de lecionação e de continuada investigação foi a filosofia da linguagem e o seu pensamento procurou entrecruzar o discurso da filosofia e o das ciências. 
Como professor, tinha a capacidade de envolver os alunos na sua própria pesquisa, mostrando a dupla face de qualquer saber. O visível, claro e inteligível, e o invisível, oculto, histórico, incompleto. Percebíamos que havia um saber e ele explicava-o bem. Mas percebíamos também que muito mais faltava para saber. Nunca escondia essa inquietação e nunca ela se confundia com insegurança. Com ele aprendia-se que o saber é um caminho sem fim e que quem escolhe seguir essa via não pode aspirar à tranquilidade. 
Publicou vários livros, em Portugal e em França, mantendo-se sempre ativo, nomeadamente através de participação no jornal Público em artigos de opinião e com um blogue, cujo último post data do último 30 de novembro. Faleceu ontem, dia 3 de dezembro, aos 85 anos.




Acabamos esta notícia com um excerto retirado de um artigo publicado no Público, a 28 de março de 2018 com o título «O enigma do cérebro: biológico e social». Nele aborda, inclusivamente, as últimas investigações de A. Damásio, neurocientista, e retira algumas consequências que advêm para as questões filosóficas tradicionais - como a da liberdade - dos conhecimentos das neurociências. 

«Porque é que um filósofo se mete a falar daquilo que aprendeu com os neurologistas? Por se ter apercebido de que, tal como em outras ciências, eles são vítimas duma tradição filosófica de 24 séculos que não lhes deixa ver senão o ‘biológico’ do órgão que o ‘opõe’ ao mundo, sendo todavia o neuronal irredutível à oposição interior (alma, sujeito, consciência) / exterior (corpo, mundo). Ou seja, um excelente argumento numa das principais questões filosóficas actuais: como é que os estudos de neurologia nos podem ajudar a compreender o que é a liberdade, fora dessa dicotomia platónico-cristã.»

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Em defesa do libertismo

O aluno Henrique Santos, do 10º G, apresenta a sua posição perante o problema do livre arbítrio.

Eu considero que o homem é a causa da sua ação e que o agente autodetermina a sua ação. Defendo, portanto, o libertismo e a existência de livre-arbítrio nas nossas ações.
                As ações resultam de deliberações racionais e podem alterar o normal decurso dos acontecimentos. Se assim não fosse, então não haveria sentido para a vida. Adotando uma perspetiva de que tudo o que homem faz é aleatório ou totalmente determinado, então não haveria um propósito para viver pois se nada pudéssemos fazer de nossa viva vontade seríamos apenas como marionetas e não faria sentido estarmos no mundo e vivermos.
                Existe também outra questão muito importante: a grande maioria das pessoas sente-se livre. Se assim o é, então, por uma questão de maioria, o livre-arbítrio é real. Até porque, caso não fosse, também não haveria responsabilidade e, mais uma vez, a grande maioria das pessoas responsabiliza-se pelas suas ações e a própria justiça responsabiliza as pessoas pelas suas ações. Seria ridículo alguém cometer um atentado terrorista onde matasse milhares de pessoas e argumentar em tribunal que não tinha responsabilidade pelo que fez pois tudo o que faz é aleatório ou então totalmente determinado por acontecimentos anteriores e, portanto, não acatar qualquer responsabilidade.
                Pensemos na primeira ação de todas praticada por um ser humano. Sendo a primeira, não haveria nada anterior que o ser humano tivesse vivenciado e que, portanto, o pudesse influenciar, logo seria uma escolha. E mesmo que todas as outras ações que se seguissem derivassem um bocadinho que fosse dessa primeira ação, estas derivariam de uma escolha, do livre-arbítrio. 
                Quanto à aleatoriedade das nossas ações, se pensarmos em algo tão simples como comer, esta ação foi escolhida ser praticada, mas tem uma causa que é, por exemplo, a fome, logo não é aleatória. A própria fome nem sequer é aleatória, pois inevitavelmente temos fome todos os dias e, por norma, mais ou menos à mesma hora. Como poderia isto ser aleatório? Não faz qualquer sentido afirmar tal coisa.

                Concluindo, o livre-arbítrio é real. Há um sentido para a vida e a maioria das pessoas acredita ter livre-arbítrio e responsabilidade pelas suas ações. O determinismo não pode ser totalmente verídico por causa da questão da primeira ação pratica por um ser humano e o indeterminismo também não pode ser real pois as nossas ações têm fundamentos e não são de todo aleatórias. O mundo natural, de facto, é regido pelas leis inexoráveis da Natureza, mas o pensamento nunca pode estar dependente das leis do mundo em que vivemos. É portanto algo superior que não conseguimos entender mas que devemos perceber a sua existência e tentar entendê-lo através do livre-arbítrio que este nos confere.

Em defesa do libertismo

Em poucas palavras, o L.M., do 10º B, apresenta-nos a sua posição perante o problema do livre arbítrio:

O problema do livre-arbítrio tem por objectivo tentar compatibilizar o determinismo que encontramos na natureza com a ideia da existência de ações livres.
Para o determinista tudo é causado ou determinado por acontecimentos anteriores.
O libertista diz que só o livre arbitrio é verdadeiro.
Sou defensor da tese libertista por achar o determinismo falso pelos seguintes motivos.
Se para o determinista tudo é causado ou determinado significa que não existem ações livres. Se não há ações livres significa que não podemos ser moralmente responsáveis pelas nossas ações. Se não podemos ser moralmente responsáveis, isso significa que não podemos ser castigados pelas nossas escolhas.
É absurdo defender que não podemos ser castigados pelas nossas ações, logo o determinismo é falso.


Nota: este texto foi originalmente publicado como comentário a um texto publicado neste blogue em que o autor defende a tese do determinismo (vd. publicação de 29 de junho de 2015)

Em defesa do libertismo

Texto da responsabilidade da aluna Sofia Pereira do 10º ano, Turma A

Existirá realmente livre arbítrio nas nossas ações?
Libertismo, enquanto resposta ao problema do livre arbítrio

O libertismo é a teoria filosófica que afirma que as ações resultam de deliberações racionais, podendo alterar o percurso dos acontecimentos.
Baseia-se assim na causalidade do agente, segundo a qual se considera que o ser humano pode escolher e agir livremente de acordo com a escolha que faz, podendo até decidir fazer algo e depois mudar de ideias, tal como refere Theodore Sider: «A mesmíssima pessoa em circunstâncias exatamente semelhantes pode, por causalidade do agente, causar coisas diferentes».1 Assim, a causalidade do agente trata-se de uma causalidade livre, já que a mente, por não ser uma entidade física, não está sujeita à causalidade natural que vigora no mundo da natureza.
Uma das principais objeções a esta teoria filosófica consiste no facto da física ainda não ter provado que os fenómenos mentais não têm leis próprias. A verdade é que acreditamos que a liberdade é um facto da experiência.
Para além disto, a experiência interior da liberdade contribui para a crença humana no livre-arbítrio: experiências introspetivas, como questionar-nos Será que esta foi a melhor escolha?, e o processo de deliberação (que antecede uma decisão) dão-nos a certeza de que as ações são livremente escolhidas.
Ora, o libertismo entende que existe uma clara diferença entre ação e acontecimento, salientando-se que, em relação aos acontecimentos, estes não dependem da vontade do agente, que não os pode escolher. Em relação às ações, estas são voluntárias, conscientes e intencionais, por isso dependem apenas da vontade e da forma como o agente responde a esses acontecimentos. Para ilustrar este argumento, podemos seguir o exemplo de Savater: «Primeiro: não somos livres de escolher o que nos acontece (ter nascido certo dia, ter certos pais, em tal país, sofrer de um cancro ou ser atropelado por um carro, ser bonito ou feio) mas somos livres de responder desta ou daquela maneira ao que nos acontece (obedecer ou revoltar-nos, ser prudentes ou temerários, vingativos ou resignados, vestir-nos de acordo com a moda ou disfarça-nos de urso das cavernas.»2. Portanto, podemos estar condicionados de diversas formas (condicionantes físico-biológicas ou histórico-culturais) e não podemos fugir a determinados acontecimentos, mas isso não nega o nosso livre-arbítrio.
Na verdade, acreditar no livre-arbítrio é seguir um modelo de responsabilização do homem pelas suas ações. Tendo o ser humano à partida uma série de opções e escolhas ao seu dispor e sendo ele livre para fazer essas escolhas, o mesmo deverá ser responsabilizado por elas. Assim, o conceito de liberdade está intimamente relacionado com o de responsabilidade moral. Sem ela, não seria possível construir a vida em sociedade e o Homem seria colocado ao nível das coisas comuns que o rodeiam, como um cão ou uma caneta.
Porém, vivendo os humanos num mundo regido pela causalidade das leis da natureza, como pode existir o livre arbítrio? A resposta é simples: o livre arbítrio é uma consequência do comportamento humano transcendente às leis da natureza, por isso a ciência «nunca conseguirá prever completamente o comportamento humano»1.
Concluindo, tendo em conta os argumentos que apresentei, é-me impossível pensar na possibilidade de sermos predeterminados. Dito isto, não posso deixar de pensar no que seria do mundo se fosse verdade que todas as nossas ações são resultado de causas extrínsecas ao nosso controlo…teria cabimento fazermos juízos morais? Faria sentido idolatrar Nelson Mandela ou odiar Hitler pelos seus atos, que afinal de contas agiram segundo determinação? Viver num mundo assim, era viver num mundo onde toda a humanidade é retirada ao Homem.




1  Theodore Sider, Enigmas da existência             
2  Fernando Savater, Ética para um jovem



sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Vergílio Ferreira, um escritor que é também filósofo

Comemora-se este ano os cem anos do nascimento de Vergílio Ferreira.
Vergílio Ferreira não nos deixou apenas romances. Embora sejam eles que representam o fundamental da sua obra, o seu interesse pela filosofia levou-o a traduzir obras filosóficas e a escrever ensaios. 
Vergílio Ferreira, 1988 (foto retirada de http://www.dn.pt/artes/interior/vergilio-ferreira-o-professor-que-queria-ser-amado-5002752.html)

Apresentamos a capa de O Existencialismo é um Humanismo - conferência proferida na Sorbonne em 1947 pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre e publicada originalmente nesse mesmo ano - traduzido e anotado para língua portuguesa por Vergílio Ferreira. É uma obra que nos ajuda a compreender a corrente filosófica denominada como existencialista e é antecedida por um ensaio de Vergílio Ferreira, datado de 1961, sobre aquele filósofo.



Transcrevemos uma passagem do ensaio de Vergílio Ferreira que se refere a um dos conceitos mais importantes na filosofia de Jean Paul Sartre - o de Liberdade. Procurámos uma referência que pudesse ser mais facilmente inteligível pelos potenciais leitores deste blogue...Não há muito, os nossos alunos andaram às voltas com o problema do livre-arbítrio...

«...em face desses factos irredutíveis - o nascer e o morrer - eu posso assumir uma reação (de aceitação, de repúdio, de alegria, de tristeza, etc.). Um facto de que não sou responsável, enquanto facto que é abre-me a possibilidade da minha reação em face dele. (...) Do mesmo modo, à condição rácica, social ou epocal que me coube por nascimento, eu a posso assumir, enfrentar, abrindo nela a possibilidade de me afirmar livre e responsável.»
(Vergílio Ferreira, «Da Fenomenologia a Sartre» em J.-P. Sartre/Vergílio Ferreira, O Existencialismo é um Humanismo, Lisboa, Editorial Presença,s/d, p. 137)

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Determinismo e Liberdade

Perante o problema filosófico do livre-arbítrio, o aluno João Silva toma posição neste texto da sua responsabilidade. Após dois anos como aluno de Filosofia, elegeu este tema como aquele que mais o sensibilizou.

«O Determinismo é a teoria filosófica que diz que para qualquer acontecimento existem condições que não poderiam ter causado qualquer outro acontecimento. Deste modo, podemos dizer que é baseado no Princípio da Causalidade, segundo o qual se considera que todos os acontecimentos têm uma causa, e por conseguinte os acontecimentos são determinados pelas suas causas e teoricamente previsíveis.
Então, como podemos pensar que temos a liberdade de escolher o que fazer? A resposta é simples, o livre arbítrio é uma ilusão que resulta de não conhecermos inteiramente as causas das nossas ações, levando-nos a pensar que não têm causa. Para ilustrar este argumento, J. Locke criou uma interessante analogia: um indivíduo a dormir é trancado numa sala escura; ao acordar ele decide permanecer na sala, não sabendo que esta está fechada à chave. No entanto, o desconhecimento da sua condição levou-o a acreditar que tem a liberdade de escolher ficar na sala.
Porém, o Determinismo tem implicações sobre a responsabilidade moral: pode-se argumentar que não podemos ser moralmente responsáveis pelas nossas ações se não temos alternativa a estas, se estamos predeterminados, ainda antes de nascer, a realizá-las. Logo, argumentar-se-ia que é injusto castigar (com penas de prisão, por exemplo) aqueles que cometem crimes, por muito graves que sejam.
É esta a linha de argumentação que seguiu o advogado C. Darrow na defesa de Leopold e Loeb em 1924, que raptaram e assassinaram um rapaz de 14 anos. C. Darrow argumentou que os criminosos não poderiam ter feito outra escolha, dados os valores da sociedade pós-guerra em que cresceram: o valor atribuído à vida humana era pouco, visto que a população se regozijava com a morte de milhares de soldados inimigos (o que dá que pensar acerca dos muitos jogos e filmes que atualmente banalizam a violência). Leopold e Loeb foram condenados a prisão perpétua.
Voltando à questão do Determinismo, a ciência, sendo também baseada no Princípio da Causalidade, tem-nos mostrado que para todo o acontecimento físico existe uma causa, que forma uma cadeia causal até ao Big Bang. Laplace chega a conjeturar que, se fosse possível conhecer a posição e velocidade de cada uma das partículas do Universo, seria possível calcular a sua posição no passado e no futuro, o que implicaria, teoricamente, a possibilidade de prever o futuro.
Todavia surgiu recentemente a mecânica quântica que explica acontecimentos ao nível subatómico como sendo baseados em probabilidade, considerando que alguns acontecimentos têm uma natureza aleatória. Esta teoria tem sido usada para argumentar contra o Determinismo, contudo admitir que os acontecimentos ocorrem aleatoriamente não implica a existência de livre arbítrio, pelo contrário, não só as ações não seriam livremente escolhidas pelo agente, como seriam escolhidas aleatoriamente. Imagina então que em vez de leres este texto como tens lido, lerias as palavras numa ordem aleatória, ou, ainda mais absurdo, que quem escreveu o texto apenas martelou aleatoriamente o seu teclado.
Concluindo, a minha opinião pessoal é que face aos argumentos que referi é difícil pensar que temos alguma possibilidade de escolha do que fazer a seguir. Dito isto, e dada a contradição com a natural crença de senso comum no livre arbítrio, não posso deixar de referir que é quase impossível acreditar a tempo inteiro que não podia ter agido de outra maneira.»

domingo, 5 de outubro de 2014

A ciência e o problema do livre-arbítrio


Haverá afinal espaço para o livre arbítrio?

2014-10-02
Depois de algum tempo de espera, desiste e levanta o braço para chamar um táxi
Depois de algum tempo de espera, desiste e levanta o braço para chamar um táxi
Está sentado numa paragem de autocarro e acredita que o autocarro irá chegar em breve. Olha para a estrada. Nada. Alguns minutos depois, levanta-se e começa a andar. “Talvez haja algum problema” - pensa. Depois de algum tempo de espera, desiste e levanta o braço para chamar um táxi. Assim que se começa a afastar da paragem, vê no retrovisor o autocarro a chegar à paragem. Mas será que teve possibilidade de esperar um pouco mais? Ou desistir de esperar pelo autocarro foi o resultado inevitável e previsível de uma determinada cadeia de eventos neurais?
No estudo publicado na revista Nature Neuroscience, investigadores do Centro Champalimaud, em Lisboa, revelam que os registos de actividade neural podem ser usados para prever quando é que decisões espontâneas vão ocorrer. “Experiências como esta têm sidas usadas para argumentar que o livre arbítrio é uma ilusão. Mas agora achamos que essa interpretação é equívoca”, explica Zachary Mainen, investigador principal e director do Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud.

A fim de tentarem prever quando é que o rato iria desistir de esperar por um sinal sonoro retardado, os investigadores registaram a actividade de neurónios numa área do cérebro conhecida por estar envolvida no planeamento de movimentos. “Nós sabíamos que os ratos não estavam apenas a responder a um estímulo, mas também a decidir espontaneamente quando desistir, pois a sua escolha variava de forma imprevisível de uma tentativa para outra”, explica Mainen.

O livre arbítrio não é uma ilusão
O livre arbítrio não é uma ilusão
Os investigadores descobriram que os neurónios do córtex pré-motor conseguem prever as acções dos animais com mais do que um segundo de antecedência. Segundo Mainen, “isto é notável porque, em experiências semelhantes realizadas em seres humanos, estes relatam tomar a decisão de se moverem apenas dois décimos de segundo antes de se moverem.”
No entanto, os investigadores afirmam que este tipo de actividade neural de previsão não significa que o cérebro tenha feito uma decisão. "Os nossos dados podem ser muito bem explicados por uma teoria de tomada de decisão conhecida como um modelo de "integration - to - bound" (integração - até um - limite), diz Mainen.

Segundo esta teoria, as células cerebrais individuais votam a favor ou contra uma determinada acção, tal como quando levantamos um braço para votar. Os circuitos neurais dentro do cérebro vão mantendo um registo dos votos a favor de cada acção e, quando o limite é atingido, a acção ocorre.

Previsões eleitorais nunca são cem por cento precisas
Previsões eleitorais nunca são cem por cento precisas
Tal como acontece com os eleitores individuais numa determinada eleição, os neurónios individuais podem influenciar uma decisão, mas não determinam o resultado. Mainen explica:

"Os resultados das eleições podem ser previstos, e quanto mais dados disponíveis melhor será o prognóstico, mas estas previsões nunca são 100% precisas e ser capaz de prever parcialmente uma eleição não significa que os resultados são pré-determinados. Da mesma forma, ser capaz de usar a actividade neural para prever uma decisão não significa que a decisão já tenha ocorrido."

Neste estudo, os investigadores também descrevem uma segunda população de neurónios cuja actividade pensa-se reflectir o registo activo de votos para uma determinada acção. Esta actividade, descrita como do tipo "rampa", já tinha sido relatada anteriormente mas apenas em humanos e outros primatas.

 Zachary Mainen
Zachary Mainen
Segundo Masayoshi Murakami, co-autor do estudo,"Acreditamos que os nossos dados fornecem fortes evidências de que o cérebro está a operar por integração, até um limite, mas ainda há muitas incógnitas".

E Mainen conclui: "Conseguir perceber qual é a origem da variabilidade é a grande questão. E até conseguirmos percebê-la, não podemos dizer que percebemos como funciona a tomada de uma decisão."

O problema do livre-arbítrio é um problema filosófico muito antigo que hoje tem vindo a receber um conjunto de contribuições das neurociências. Não sabemos ainda o que vai acontecer. Restam duas hipóteses:
1. ou a ciência irá conseguir obter uma resposta que solucionará o problema que, assim, abandonará o campo da filosofia (como tem acontecido ao longo da História noutros casos)
2. ou a ciência esclarecerá uma parte do problema que continuará a persistir como questão filosófica

Simplificando, tradicionalmente considera-se  a existência de duas teorias filosóficas fundamentais. Temos
1. as que defendem que o homem está sujeito ao determinismo, que todas as ações são causadas e que, portanto, o homem não pode ser considerado livre nas suas escolhas e decisões. Julgamo-nos livres, apenas porque desconhecemos as causas das nossas ações, no dizer de Espinoza (filósofo do século XVII).
2. as que defendem que há escolhas livres, que o homem tem poder para decidir de acordo com a sua consciência racional e a sua vontade.

Segundo esta notícia, parece que os deterministas perderam um argumento a favor da sua tese. Afinal, o livre-arbítrio poderá não ser uma ilusão! 

Sendo assim, a questão de saber se o livre-arbítrio existe, a questão de saber se somos livres ou determinados nas nossas ações/decisões continua em aberto. 

Os alunos de filosofia seniores sabem bem do que estamos a falar!!!

Aliás, esta notícia é um desafio para o J.S., aluno de filosofia do 11ºano, que se declara determinista!