sexta-feira, 14 de julho de 2017

Ciência e Filosofia (3)

(continuação das duas publicações anteriores)


"Este poema é sobre a vida de um dos "gigantes da física" – Galileu Galilei que viveu no século XVII. Galileu é considerado por muitos o pai da ciência moderna porque foi o primeiro a combinar observação experimental com a descrição dos fenómenos num contexto teórico, com leis expressas em formulação matemática. Pode dizer-se que Galileu marcou a transição da filosofia natural da Antiguidade ao método científico atual. Durante a sua vida, dedicou-se aos estudos relacionados com a Física, sendo esta uma ciência extremamente importante para o homem e para a evolução. Teve o início na Grécia Antiga, onde os filósofos procuravam entender o funcionamento da dinâmica do planeta Terra e seus fenómenos.

No contexto desta afirmação
, a professora apresentou o exemplo de Tales de Mileto, que foi considerado o primeiro filósofo pelo facto de buscar explicações de todas as coisas através de um princípio ou origem causal (archea), diferentemente do que os mitos antes mostravam. Tales acreditava que os mitos não eram suficientemente esclarecedores e, como tal, procurava uma explicação racional para entender o mundo à sua volta. Essa busca racional pela verdade marca o início da Filosofia.
De seguida, os alunos do 11ºB iniciaram a explicação sobre algumas estrofes importantes no poema.

- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação-
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.


Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

            Os alunos começaram por esclarecer que, segundo Galileu, dois objetos pequenos, compactos e com pesos distintos lançados a uma curta distância, atingiriam o chão à mesma velocidade, o que se refere a uma queda livre. Tal deve-se ao facto de a única força a atuar neles ser a força gravítica (uma força à distancia que a Terra exerce sobre sobre o nosso corpo), ou seja, a resistência do ar neste caso é desprezável. O movimento é o movimento uniformemente acelerado na descida e uniformemente retardado na subida, uma vez que a aceleração é a aceleração gravítica (cujo valor é 10m/s2), o que implica que velocidade aumente 10 metros em cada segundo durante uma descida e diminua 10 m/s numa subida. Os aprendizes apresentaram ainda a experiência que prova a conclusão de Galileu, que consistia em calcular a variação da aceleração através da expressão a=V/t (a variação de aceleração é igual à variação de velocidade a dividir pela variação de tempo). A variação de velocidade é, por sua vez, determinada pela distância que o objeto percorre entre duas células fotoelétricas. Neste caso, é espectável verificar que a aceleração dos diferentes objetos sejam bastante próximas e é idêntica à aceleração gravítica."
                                                                                                         
(continua) 

Ciência e Filosofia (2)

(continuação da publicação anterior)

Na impossibilidade de apresentar aqui a leitura do "Poema para Galileo" pelos alunos do 11º J, deixamos a sua interpretação pelo extraordinário ator Mário Viegas (1948-1996).




Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas – parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

Nota: a transcrição do poema segue a grafia original

António Gedeão, Poesias Completas, Lisboa, Sá da Costa Editora, 1982, pp. 149-152.
Nota:  António Gedeão é o pseudónimo de Rómulo de Carvalho (1906-1997), professor de Física, pedagogo, poeta e historiador da ciência e da educação.
(continua)
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