quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Sobre a Paz

Publicamos um dos cartazes elaborados por um grupo de alunos do 11º ano.

Olhe para este cartaz, leia as perguntas, aceite o desafio que lhe é lançado.

PREPARE-SE PARA RESPONDER!

 



Numa altura em que assistimos a situações de guerra, como as que decorrem na Europa e no Médio Oriente, a escolha feita por estes alunos parece-nos bem pertinente.

Afinal, que homens e mulheres somos nós, os que praticam atos de violência e morte, que homens e mulheres somos nós, os que assistimos, na tranquilidade do nosso sofá, à chacina de outros homens, de outras mulheres, como nós?

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA na MT - É na escola que aprendemos o valor do pensamento

A aventura intelectual que a ciência e a filosofia representam teve início por volta do século VII a. C., na Grécia Antiga, num ambiente de relativo bem estar económico, paz e liberdade de pensamento. Hoje, tal como ontem, a ciência e a filosofia alimentam-se da liberdade e, ao mesmo tempo, preservam-na. Nenhum processo de investigação - científica, filosófica, política ou religiosa - pode dispensar o diálogo no qual as ideias se abrem ao confronto, à expressão pública, à exigência de clarificação e de avaliação do seu alcance e limites. Não é por acaso que todos os autoritarismos se dão mal com a liberdade de pensamento, seja qual for o seu lugar de origem.

É também na escola que aprendemos o valor do pensamento e que desenvolvemos a capacidade de viver em conjunto. A escola continua a ser esse lugar «onde se aprende a discutir, a aceitar a opinião divergente, a combater com argumentos, por exemplo, em vez de ser com insultos», nas palavras do filósofo Eduardo Lourenço (ver aqui publicação de 16 de abril de 2015, etiqueta Filósofos portugueses). É também sob esta inspiração que temos vindo a celebrar, de há muito e sob diversos modos, o Dia Mundial da Filosofia na nossa escola. 

 

FILOSOFIA HOJE - Byung -Chul Han, A dominação torna-se completa no momento em que se apresenta como liberdade

Byung-Chul Han, Filósofo norte-coreano (radicado em Berlim), n. 1959

Somente um regime repressivo provoca a resistência. Pelo contrário, o regime neoliberal, que não oprime a liberdade, e sim a explora, não enfrenta nenhuma resistência. Não é repressor, e sim sedutor. A dominação torna-se completa no momento em que se apresenta como a liberdade.

O romance 1984 de George Orwell transformou-se há pouco tempo num sucesso de vendas mundial. As pessoas têm a sensação de que algo não anda bem com nossa zona de conforto digital. Mas nossa sociedade se parece mais a Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Em 1984 as pessoas são controladas pela ameaça de serem machucadas. Em Admirável Mundo Novo são controladas pela administração de prazer. O Estado distribui uma droga chamada “soma” para que todo mundo se sinta feliz. Esse é nosso futuro.

Na depressão perdemos a relação com o mundo, com o outro. E afundamo-nos num ego difuso. Penso que a digitalização, e com ela o smartphone,  transformam-nos em depressivos. Há histórias de dentistas que contam que seus pacientes se agarram-se aos seus telefones quando o tratamento é doloroso. Por que o fazem? Graças ao telemóvel sou consciente de mim mesmo. O telemóvel ajuda-me a ter a certeza de que vivo, de que existo. Dessa forma agarramo-nos ao celular em situações críticas, como o tratamento dentário. Eu lembro-me que quando era criança apertava a mão da minha mãe no dentista. Hoje a mãe não dá a mão à criança, e sim o telemóvel para que se agarre a ele. A sustentação não vem dos outros, e sim de si mesmo. Isso adoece-nos. Temos que recuperar o outro.

Excertos da entrevista dada ao jornal El País, em 9 de out. 2021

Consultável, aqui: Byung-Chul Han: “O celular é um instrumento de dominação. Age como um rosário” | Cultura | EL PAÍS Brasil (elpais.com)

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

FILOSOFIA HOJE - José Barata-Moura, Traços do Pensar Filosófico

 

 


Criticar não é dizer-mal; é procurar ver bem. Tão-pouco criticar é contrapôr, de um modo abstrato e mecânico, enunciações que entre si se excluem. (…) A crítica é um exame: um fazer passar pelos crivos da racionalidade, e do discernimento, tudo aquilo que imediatamente se nos apresenta (…) como inquestionável.

Há que cuidar de um estabelecimento correto dos problemas. A labuta do pensar não visa simplesmente as respostas que, em prémio, hão-de obter-se. Precisa de madrugar. Começa mais cedo. Pela elaboração dos questionários. As «soluções» não caem do céu. De paraquedas. Por inspiração funda de alguma corrente de ar benfazeja. Rodopiando no espirro incandescente de uma revoada de luz, ou no piar de um passarinho. As vias resolutórias engendram-se, surgem, e transpiram, de dentro de uma problemática que lhes define um horizonte. Confirma-se que os filósofos parecem ter predileção pelo acionamento de uma estranha maquineta que dá pelo nome sugestivo de «complicómetro». Mas não é porque eles estejam possuídos por uma indebelável mania de ensarilhar os lotes. O sarilho está metido no próprio enredamento das coisas. E para desenvencilhar é preciso trazê-lo à mastigação do pensamento.

Texto completo aqui:

Philosophica 45 r.indd (ul.pt)

FILOSOFIA HOJE - Markus Gabriel, "Precisamos de mais filosofia no espaço público"

No dia em que se celebra o Dia Mundial da Filosofia, publicamos alguns textos de filósofos contemporâneos.


O filósofo alemão Markus Gabriel (n.1980)

Precisamos de um pensamento bem informado, estruturado, e que não seja o pensamento do “especialista”. Esse pensamento é o da filosofia. De certa maneira, todos os seres são filósofos, mas não sabem. Todos querem saber se somos agregados de célula ou imortais. Essas questões a respeito de quem somos são filosóficas. Precisamos é de mais filosofia no espaço político.

Mas na filosofia trata-se de uma reflexão que, em princípio, não tem nenhuma meta além da reflexão, trocar ideias em torno de uma questão sem querer nada com isso, o que é um conceito importante da liberdade: a ideia de um pensamento sem fim que nos liberta, que produz conhecimento e autoconhecimento. É uma forma de liberdade e de resistência. Por isso o grande génio da Filosofia, Sócrates, resistiu ao sistema político da democracia grega ao insistir que ele não sabia nada.

Um critério para uma sociedade mais justa deveria incluir o direito humano a ter tempo na vida para discutir a questão de quem somos. Quem não tem sequer tempo para isso jamais poderá viver uma “boa vida”. Para mim é um imperativo categórico que haja espaço de educação e reflexão para todos. Sou universalista radical nesse sentido. Mas é difícil chegar com os pressupostos económicos em vigor.

Excertos de uma entrevista ao Jornal Globo, que pode ser vista aqui: 

'A ideologia é de um tipo de fim do mundo', diz o filósofo Markus Gabriel - Jornal O Globo

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA NA ESMT

Abrimos este ano letivo no nosso blogue com o Dia Mundial da Filosofia!

De novo, o nosso cartaz! Já afixado nos locais habituais... Junto à Sala de Professores, na Sala de Professores e na Biblioteca da nossa escola.

Por toda a escola estão cartazes elaborados pelos nossos alunos, assinalando este dia. 

Esta exposição irá permanecer por uma semana. 


ESCOLA SECUNDÁRIA DE MADEIRA TORRES

Grupo Disciplinar de Filosofia e BEMT

16 de novembro de 2023

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA

Instituído em 2005 pela Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (UNESCO), o Dia Mundial da Filosofia é celebrado todos os anos na terceira quinta feira do mês de novembro. Tem vindo a ser comemorado na nossa escola desde 2006.


Labirinto do minotauro na Casa dos Repuxos em Conímbriga

Divulgação de trabalhos dos alunos. 




quinta-feira, 22 de junho de 2023

A Política Contada aos Jovens...

Os alunos do 12º ano, Curso de Línguas e Humanidades, da disciplina de Ciência Política, sob responsabilidade dos professores Kelly Marques e Carlos Reis, tiveram a oportunidade de assistir ao Colóquio "Quem pertence à Europa?", cuja oradora foi a doutoranda em Ciência Política, Corina Lozovan. A atividade teve lugar no Anfiteatro da nossa escola e foi realizada em parceria com o programa "Política Contada aos Jovens" do Espaço Primavera da CMTV. 

https://www.youtube.com/watch?v=ASeNeLm8SgE&t=94s 


Debate Eutanásia (9) - Argumentos válidos ou falácias?

Em qualquer debate argumentativo é importante estar atento para distinguir os argumentos válidos dos argumentos falaciosos, aqueles que aparentam ter valor mas não o têm. As falácias podem ser usadas intencionalmente com o simples objetivo de vencer a tese do adversário ou podem ser falhas do raciocínio de que o sujeito não se dá conta. Quer num caso, quer noutro, as falácias dificultam o prosseguimento do debate racional, introduzindo um fator que confunde, tira condições de esclarecimento do problema e de obtenção de um consenso. 


A propósito do debate na sociedade portuguesa com expressão no espaço público, publicamos um artigo do médico neurologista Rosalvo Almeida, membro do CNECV (Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida), «O Espantalho e outras falácias», que aponta um conjunto de falácias (todas conhecidas dos nossos alunos) detetadas na discussão sobre a eutanásia. Este artigo foi publicado a 5 de setembro de 2016.

O espantalho e outras falácias

No debate sobre a despenalização da ajuda à antecipação da morte quando pedida por pessoa maior de idade em sofrimento devido a doença incurável ou irreversível (defendida sem ambiguidades em artigos meus neste jornal, “O horror do absoluto” em Julho e “Em defesa dos cuidados paliativos” em Abril, assim como em textos de outros) temos visto que há quem persista em considerar que é justo condenar à prisão quem, em determinadas condições, satisfaça tais pedidos.

O espantalho e outras falácias

Tal como no passado, muitos confundem o objectivo da despenalização com a bondade do acto a despenalizar. Ou seja, posso não concordar com o recurso à interrupção voluntária de uma gravidez mas não me atribuo o direito de castigar quem o faça, em determinadas condições. No caso presente, posso não satisfazer um pedido de ajuda à antecipação da morte que me seja dirigido mas não me autorizo a punir quem o faça, em determinadas condições. Penalizar, como prevê hoje o Código Penal, proíbe mas despenalizar não obriga.

O argumentário usado pelas partes resvala frequentemente para falácias que todos devemos evitar.

Dizer que modificar uma lei para despenalizar um acto, em determinadas condições, é pôr o Estado a realizar esse acto consubstancia a conhecida falácia do ‘espantalho’ – é deturpar o argumento do adversário para ser mais fácil atacá-lo. Exagerar ou distorcer o que outrem afirma faz parecer que a própria posição é razoável, mas isso no final descredibiliza o debate racional e sério.

Perguntar se o Estado “deve promover a morte dos cidadãos que queiram pôr termo à sua vida” ou “pode decidir que vidas têm ou não dignidade” é utilizar outra falácia – a ‘pergunta capciosa’. A pergunta ardilosa tem uma presunção incluída de modo a que não possa ser respondida sem sensação de culpa. Mas a resposta é claramente: não!

Se, em vez de defendermos a nossa posição, desqualificássemos o opositor à nossa proposta, estaríamos, como foi feito, a recorrer à falácia ‘ad homineme perderíamos a razão.

O Estado que legisla sobre as condições em que tais actos não serão crime não está a promover o homicídio. Dizer isso é ameaçar com a falácia da ‘rampa escorregadia’.

Dizer que os cuidados paliativos conseguem evitar sempre e sempre o sofrimento da pessoa doente é ‘tomar a parte pelo todo’ – outra falácia.

Não creio que se justifique continuar a malhar em ferro frio. Os dados estão lançados. Pressente-se que, na sociedade dos nossos dias, cresce o número dos que concordam com a despenalização da morte ajudada ou suicídio assistido, em determinadas condições.

É hora de os legisladores sentirem essa mudança de perspectiva nos portugueses. Cabe, agora, aos deputados tomarem iniciativas legislativas concretas que definam as condições em que não há lugar a pena de prisão para os profissionais de saúde que, em consciência, procedam com compaixão e evitem somar sofrimento ao sofrimento. O dever de bem assistir à pessoa doente não implica o afastamento do direito à objecção de consciência.

Disponível em O espantalho e outras falácias | Opinião | PÚBLICO (publico.pt). Consulta em 22 de junho 2023.





Debate Eutanásia (8) - A lei e o indivíduo

A área jurídica e a área filosófica, a política e a ética, a lei e a moral são alvo de muitas interseções, mantendo-se, no entanto os seus campos diferenciados de análise e de abordagem dos problemas. No debate político sobre a eutanásia foram esgrimidos argumentos de caráter ético, filosófico e religioso e o facto de ter vingado uma determinada decisão. que o solucionou do ponto de vista legal, não lhe retira a complexidade e a continuidade como problema ético e filosófico. A consciência e as decisões morais estão na dependência do individuo, seja qual for a circunstância. Isto significa pelo menos duas coisas: se a lei obriga, o indivíduo pode desobedecer, caso considere a lei injusta e violadora da sua consciência moral; se a lei não obriga e apenas permite, o que é o caso da lei da Eutanásia, isso em nada obriga o indivíduo. Na primeira situação, podem ocorrer consequências danosas para o indivíduo. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Cônsul Aristides Sousa Mendes, Cônsul em Bordéus na altura da perseguição aos judeus pelo regime nazi, que desobedeceu a ordens do regime fascista português de Oliveira Salazar. Desobedecendo, Aristides Sousa Mendes passou vistos a judeus para saírem do país e, deste modo, salvou-lhes a vida. Desobedecendo, perdeu a sua carreira e retornou a Portugal sem honra nem glória. Na segunda situação, em que nos referimos à lei que permite, podemos simplesmente dizer que o facto de a eutanásia ser permitida não me obriga, a mim, caso me venha a encontrar em qualquer das situações previstas na lei, a socorrer-me dela se a minha consciência o recusar. O mesmo ocorre com a lei da interrupção voluntária da gravidez, para utilizarmos outro exemplo. 

Qualquer decisão tem por base valores que a sustentam. Podemos considerar que o valor político que foi considerado na aprovação da lei da eutanásia em Portugal foi o da liberdade individual. O indivíduo é considerado detentor da sua vida, podendo fazer dela o que considerar melhor, incluindo o de tomar uma decisão sobre o seu fim. Ao Estado não cabe sobrepor-se à vontade individual, mas criar as condições para o seu exercício.

Quando lidamos com o princípio ou com o fim da vida não há nada que seja simples. Essas são as questões mais radicais da existência humana e mobilizam crenças, princípios e valores que atravessam qualquer discussão. É papel da filosofia elucidar conceitos e investigar de forma analítica e racional as diversas perspetivas sob as quais um problema pode ser abordado. Este é apenas um modo de o perspetivar. 



Debate Eutanásia (7) - O problema moral, alguns esclarecimentos para um debate

Do grego eu, que significa bem e thanatos, que significa morte, a palavra eutanásia significa “boa morte” ou “morte feliz” porque é uma “morte feliz” para quem morre, ou seja, é uma morte benéfica para o paciente. Daqui podemos inferir que a eutanásia consiste em provocar, intencionalmente, a morte de um determinado indivíduo para seu benefício. Porém, importa salientar que a forma como a morte do paciente é provocada pode ser efetivada de duas maneiras diferentes: tomando medidas ativas ou passivas. No primeiro caso, estamos a falar de eutanásia ativa porque são tomadas medidas ativas – como, por exemplo, uma injeção letal – que matam o paciente. Por outro lado, no segundo caso, estamos a falar de eutanásia passiva porque são tomadas medidas passivas - como, por exemplo, a omissão do uso do suporte de vida do paciente - com a finalidade de o deixar morrer. Tal como podemos sintetizar através das palavras de Pedro Galvão:

“Outra distinção entre tipos de eutanásia, independentemente daquela que respeita à vontade do paciente, é a que separa a eutanásia ativa da passiva. Na primeira, a morte ocorre em virtude de algo que o agente faz: ele mata o paciente. Na segunda, o agente limita-se a deixar morrer: a morte do paciente resulta de uma simples omissão.” (Galvão 2015: 49).

Reconhecendo, por um lado, que o problema ético da eutanásia não se esgota nesta distinção e, por outro lado, de forma a esclarecer conceitos essenciais que estarão na base do debate a realizar, urge a necessidade de compreendermos os diversos tipos de eutanásia: eutanásia voluntária ativa; eutanásia involuntária ativa; eutanásia não voluntária ativa; eutanásia voluntária passiva; eutanásia involuntária passiva; eutanásia não-voluntária passiva. Comecemos por salientar a principal diferença:

“(...) a eutanásia voluntária: aquela que é praticada a pedido do paciente ou, se ele já não for capaz de exprimir a sua vontade, de acordo com as instruções que deixou quando era competente para decidir o curso da sua vida.” (Ibidem)

Do grego voluntas, que significa vontade, o adjetivo voluntário qualifica algo que é realizado de livre vontade e, como tal, a eutanásia voluntária verifica-se quando o paciente está em sofrimento e pede, voluntariamente, que o “matem” (eutanásia voluntária ativa) ou que o “deixem morrer” (eutanásia voluntária passiva). Inversamente, temos a considerar a:

“eutanásia não-voluntária, que se aplica àqueles que, sem terem deixado instruções relevantes, perderam a capacidade de entender a escolha entre a vida e a morte – ou que, como no caso dos recém-nascidos, nunca chegaram a ter essa capacidade.” (Ibidem).

Assim, a eutanásia não-voluntária consiste em “matar” (eutanásia não-voluntária ativa) ou “deixar morrer” (eutanásia não-voluntária passiva) um determinado paciente que não está em condições de expressar a sua vontade, nem de efetivar o seu consentimento devido ao facto, por exemplo, de estar em coma. Relativamente à eutanásia involuntária “(...) o paciente é capaz de entender a escolha entre a vida e a morte, mas é morto contra a sua vontade ou sem lhe ter sido dada a oportunidade de a exprimir.” (Ibidem). Neste caso, podemos afirmar que esta consiste em “matar” (eutanásia involuntária ativa) ou “deixar morrer” (eutanásia involuntária passiva) um determinado paciente contra a sua vontade, no sentido em que este estava em condições de dar ou recusar o seu consentimento, no entanto, não lhe foi dada a oportunidade de o expressar. Optámos por estabelecer a distinção entre os vários tipos de eutanásia porque, antes de partirmos para o debate sobre o problema fundamental, é preciso que estejamos familiarizados não só com os conceitos básicos que lhe estão associados, mas também com os valores que a prática da eutanásia poderá colocar em causa.

A questão-chave em torno da qual girará o debate é a seguinte: «Será a eutanásia voluntária moralmente permissível?» Iremos, portanto, refletir sobre a eutanásia voluntária, isto é, a eutanásia que é praticada a pedido dos pacientes, especificamente os que sofrem de doenças terminais ou que estão num estado permanente de dor e sofrimento irremediável, e que querem por termo à vida para o seu próprio bem.

Neste contexto, levantámos algumas questões-problema orientadoras da discussão: “Será moralmente permissível que os indivíduos, especificamente os doentes terminais com dores físicas e sofrimento emocional insuportáveis, acabem com as suas vidas?”; “Se sim, será aceitável que o façam recusando, apenas, o tratamento médico que sustenta as suas vidas ou tomando medidas ativas para se matarem?”; “Se for permissível tomarem medidas ativas para se matarem, será moralmente aceitável pedirem a outros – por exemplo, aos médicos – para os auxiliarem na concretização dessa ação?”; “Será moralmente aceitável aceder a esse pedido?”

(Texto e atividade sob responsabilidade da professora Lúcia Silva)

Pedro Galvão, Ética com Razões, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015